Entrevista a Mestra Morena

Mestra Morena

Mestra Morena

 

Maria Cristina, conhecida como Morena na Capoeira começou a sua caminhada no mês de Abril de 1980. Uma das primeiras mulheres na Capoeira começou da mano do Mestre Toni Vargas de Senzala com quem aprendeu durante 16 anos. A vida levou Mestra Morena a conhecer o Mestre Ponciano e ela passou para o grupo Cordão de Ouro onde ela acompanha o Mestre Ponciano com o trabalho da Capoeira Especial.

Esse trabalho com a capoeira adaptada tem mais de 36 anos já e cresce sem parar melhorando a vida dos alunos mais também de todas as pessoas involucradas no projeto que não param de aprender.
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Entrevista com Mestra Morena, 04 de dezembro de 2016

Como e quando você chegou na Capoeira?

Bom dia, eu me chamo Maria Cristina e na Capoeira me chamo Morena. Eu comecei no dia 15 de Abril de 1980. Eu sou carioca, nasci em Rio de Janeiro, e aos 15 anos o meu irmão me levou para conhecer várias academias e quando eu entrei em uma academia de Capoeira logo me encantei. Entrei na Academia do Mestre Peixinho, do grupo Senzala, já havia na época o Mestre Itamar que dava aula, o Mestre Peixinho e o graduado Toni Vargas que foi com quem eu comecei. Na época era graduado. E assim eu comecei Capoeira.
Eu gostaria saber cuales são as diferencias que você achou na capoeira Carioca e depois na capoeira de Guaratinguetá
Para explicar isso eu tenho que dizer que eu tenho 16 anos de capoeira em Rio de Janeiro no grupo Senzala, e depois eu fui morar em Guaratinguetá, passei treinar com Mestre Ponciano com que hoje ainda trabalho. Neste período da Cordão de Ouro já são 20 anos. Nesses 20 anos, eu primeiro fiz os meus estágios porque Guaratinguetá é uma cidade que a Capoeira, além de fazer tudo o que a capoeira faz, Mestre Ponciano se especializou em um trabalho para pessoas deficientes, trabalha com todas as deficiências. Durante seis anos eu estagiei com ele para esse trabalho e depois eu comecei a trabalhar com ele na academia além dos treinos.
Eu fui me graduando com a autorização do Mestre Suassuna, com quem eu convivi no grupo um tempo, foi quem me recebeu. A partir desses anos eu fui me estabelecendo na capoeira, fazendo amizade com outros focos dentro da Cordão de Ouro e a gente tem uma associação também chamada Capoeira Especial.

Como surgiu a Associação?

Ela surgiu desse trabalho de 36 anos de Capoeira especial e adaptada. Que é uma especialidade nossa, o capoeirista além de todo o que aprende na capoeira, os estilos, as pedagogias… o Mestre Ponciano desenvolveu essa pedagogia para trabalhar com pessoas com deficiências. Com ela a gente oferece palestras, aulas e consegue fazer uma expansão dessa capoeira que traz tantos benefícios para as pessoas com necessidades especiais e ao mesmo tempo traz uma contribuição muito grande pela Capoeira porque o mundo da Capoeira quando se encontrava na cidade percebeu como lidar com os especiais, tornava todos melhores! Mesmo um jogador atleta como alguém que gosta Capoeira como lazer.
Eu sou feliz nesse trabalho de 20 anos dentro da Cordão de Ouro, Mestre Suassuna é uma pessoa que me incentiva bastante, estimula o crescimento feminino dentro da capoeira também.

Você é uma das primeiras Mestras mulheres, como foi?

Do grupo Cordão de Ouro sim. O Mestre Ponciano achou que poderia me graduar, o Mestre Suassuna na mesma hora concordou, porque ele vai acompanhando a trajetória das pessoas. Eu fiquei muito honrada, porque quando eu entrei na Capoeira no 80, tinham poucas mulheres. Já tinha um tempo na Capoeira e isso não é um titulo, é uma vivencia que você vai tendo, e você vai se apresentando para a comunidade Capoeirista e dentro da mesma Capoeira em si que se expandiu no mundo inteiro. É a força do trabalho da Capoeira, por isso que ela pega outros povos, pessoas deficientes, pessoas com projetos sociais, aqueles atletas, ela consegue dar uma visibilidade para a atividade física também.

No começo tinha camaradagem entre as mulheres o era uma capoeira mais dura para as mulheres achassem o seu lugar?

Eu acho que no começo, que tinha poucas mulheres, a gente não pensava nesse angulo, a gente pensava que a gente tinha que aguentar os treinos, se aprimorar e conseguir entrar na roda e se manter na roda. Não era nada mulher com mulher, era mulher querendo ocupar o seu espaço. Era uma coisa muito masculina, o propio canto da capoeira você não via mulheres cantando, tocando… A roda era uma coisa muito masculina, hoje em dia na Europa a gente tem um outro panorama, no Brasil também. A Capoeira já tem muitas mulheres, e isso antes não era muito comum. As vezes, quando acontecia alguma aproximação querendo uma disputa, as vezes acho que era até incentivado pelos homens porque eles viam a mulher mostrando a força, achavam que com mulher assim ia dar certo. As mulheres que tavão jogando capoeira naquela época tinham que se preparar para aguentar tudo e eu intentava me colocar da melhor maneira no jogo, porque existe uma diferencia da força física muito grande e hoje em dia se respeita uma capoeira jogada, principalmente na Cordão de Ouro, acho que é uma característica do grupo: deixar a Capoeira ser jogada. Eu vejo que numa determinada época, quando eu comecei, no final dos anos 80, se estremava para uma técnica e um uso da força física. Era difícil para um homem receber uma entrada feminina, e aceitar que era feita com facilidade. Hoje em dia tem rodas que não precisa nem bater, as pessoas já estão aceitando que a hora que pegou pegou, você não precisa contar para todo o mundo. Tem rodas que são para isso mais não pode ser isso o tempo inteiro.
Como mulher a gente aprende a correr detrais da capoeira, a poder ter essa firmeza. Aí é tudo igual.

Qual é a sua dica para um capoeirista que está começando?

Acho que a Capoeira é muito bonita, ela estimula a autoestima na gente. A gente vai se conhecendo, a gente tem que manter uma atenção de: estou sempre aprendendo. A vaidade, o orgulho, as vezes até a falta de um companheirismo, podem fazer a pessoa se perder.
Na Capoeira a gente tem que observar, observar o que é bom para você, o que gosta, o que não gosta. E seguir com a Capoeira, a gente tem que manter rituais, reconhecer os velhos mestres, respeitar o berimbau, tem que ser educado para que as pessoas sejam com a gente, ao mesmo tempo tem que ser firme, tem que ser Capoeira. E a Capoeira é tudo, ela não e um na frente do outro, na hora que fica bom, fica todo o mundo junto!

Porque Morena?

Quando eu comecei treinar com o Mestre Vargas, quando eu fui pegar a minha segunda graduação ele perguntou: tenho dois nomes de capoeira para você escolher: Ébano (que é aquela madeira preta do piano) ou Morena. Eu lhe falei que Morena tem mais que ver comigo porque eu não sou tão escura.

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