Entrevista a Mestre Kibe

Mestre Kibe

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Guido Amezola, mais conhecido como Mestre Kibe começou na Capoeira vencendo muito medos e inseguridades internas até hoje. Ele venceu todos esses medos com muita dedicação e treino duro para formar a sua Capoeira cheia de movimentações e sendo um exemplo a seguir para qualquer capoeirista. Atualmente toma conta da Matriz da Cordão de Ouro em São Paolo.
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Entrevista a Mestre Kibe , 12 de Novembro de 2016

Quando e como você começou na Capoeira?

A primeira vez que eu vi a Capoeira foi em 99, tinha um sacolão onde se vendia frutas e coisas assim, e a academia era em cima e depois que o meu pai comprou o restaurante, Suassuna mudou para onde meu pai. Eu comecei a me interessar pela Capoeira no período do 96, final de 96 quase 97. Porque aquela época do Suassuna era uma época muito pesada, aquela coisa da Bahia, aquela coisa de “eu sou baiano, eu sou bravo” era uma escola tipo o é matar o é correr.
Eu comecei Capoeira com 12 anos, e nesses 12 anos eu pesava 100 kg, era muito gordo, era muito obeso. Tinha uma facilidade, não na Capoeira mas sim no futebol, eu jogava bola antes. Conforme eu foi crescendo, jogando eu foi emagrecendo. Eu comecei a me interessar pela Capoeira depois que eu vi o Mestre Durinho e o Tião, dar parafusos, subir na parede…eu tive muito interesse em aprender isso, falei nossa a Capoeira não tem só isso que o Suassuna passa para a galera mais velha, tem outras belezas que é a musicalidade, a coordenação motora, o equilíbrio, a força e o raciocínio rápido. E eu falei vou ter que me arriscar nessa cosa que é a Capoeira. Treinei um ano de Capoeira e as pessoas começaram a me machucar, a suar, não tinha a coisa essa chamada de bulling antes: aa seu gordinho! Seu olho de poço! Seu baleia! Free Willy! Isso me deu um psicológico e parei um ano de treinar. Depois de um ano eu me falei, vou voltar treinar para ser melhor que essas pessoas. Isso foi um desafio muito bom para mim, i deu certo, porque tudo o que eu sonhava se tornou realidade. Eu treinei para ser o melhor do Suassuna i para as pessoas, não me respeitar, mais falar: porra! O cara consegui chegar onde ele chegou porque treinou muito. Eu agradeço muito ao Mestre Durinho que faleceu, o Tião, treinei com Sarará, treinei com Carlos, depois com Mestre Xavier e finalmente com Mestre Totinho; e quando todas essas pessoas foram embora eu comecei a treinar com Suassuna. Depois de dez anos. Depois desses dez anos eu comecei a treinar com o Mestre e quando o Torinho foi embora assumi a academia, hoje eu estou no espaço que ele deixou para mim ta na Santa Cecília, que é a Matriz. Agradeço muito ao Mestre e a todos os Mestres que me ajudaron.

Entre todos os Mestres dos que você falou, quem é que você considera o seu Mestre?

Eu considero meu Mestre o primeiro que me deu aula, o Durinho e o Tião. Eles foram mais uma consequência, um aprendizado porque eu vivi pouco com o Mestre Durinho, foi uma coisa do 97 até 2000. Eu tinha uma frequência muito boa com eles.

A gente gostaria de saber qual é o seu apelido e porqué?

Meu nome em verdade é Guido mais as pessoas me chaman de Kibe. Eu comia muita porcaria, bolinhos de carne, coxinhas… eu sempre estava com uma coxinha na mão, um kibe na outra, um guaraná, uma coca cola… tudo no mesmo tempo! Uma vez o Mestre Xavier falou para mim: “Rapaz eu tenho um bom apelido para você: KIbe” porqué Kibe? Ele falou, compra um Kibe e vou te mostrar porque é Kibe. Um Kibe em a cabecinha assim e tem o corpo e acaba com as perninhas… e ficou esse bolinho de carne até hoje.

Você pegou direitinho o cordão amarelo, porque?

Eu tinha medo dos batizados. Antes a Capoeira era mais dura e eu tinha medo de começar, toda vez que tinha um batizado eu fugia. Acho que eu fugi cinco batizados de Capoeira. Foi pegar o primeiro cordão com o Mestre Urubu Malandro, e como eu tinha esquecido a câmara de filmagem quando eu saí do restaurante ele falou para mim: Kibe hoje eu vou quebrar o seu joelho. Eu fiquei com medo de jogar mais ele não ia fazer isso, era o maior evento do Suassuna era no 98-99, quase 10.000 Cordão de Ouro. Foi um evento top na minha vida, eu vi o Mestre Gato, o Mestre Mão Branca, Mestre Suassuna jogar, ver Mestres que nunca vi na minha vida foi, e é até hoje uma coisa que agradeço a Deus porquê da onde a gente veio, é tudo deles. Eu peguei amarelo direito, depois de amarelo eu fui para o verde amarelo que era uma confederação que o Suassuna tinha montado: era verde, era amarelo, azul e verde amarelo. Eu peguei verde amarelo que era a quarta graduação, antigamente era amarelo azul, eu fui para o azul em 2000. Fiquei no azul quatro anos, depois de azul foi para Contra Mestre e fiquei dez anos de Contra Mestre e peguei diretamente, pulei o branco verde e peguei diretamente o branco amarelo em 2013 com Boca.

Como é que você chegou a tomar conta da Matriz?

No começo foi meio difícil, vou falar real, foi difícil porque eu era muito menino. Como eu treinava muito movimento eu queria fazer o que eu fazia comigo para os alunos. E não dava certo. Eu comecei a entender que não podia fazer a minha Capoeira com os alunos da academia, o Mestre ficava bravo: Ta errado! Ele começava a me chingar e eu ficava puto! Porque eu não entendia e ele me falou: “meu filho, a Capoeira que você joga é uma, a Capoeira que você quer passar é outra, mas o aluno não vai entender isso por enquanto. O que eu quero deixar é a academia para você e eu quero que você entenda que tem que passar uma Capoeira fácil para o aluno entender e querer voltar para ficar do seu lado. Essas coisas que você faz, é só você quem faz! O aluno não quer fazer queda de rins, bananeira… ele quer dar armada e meia lua de compasso! E ao pouco o Mestre foi cedendo ia dois dias, não ia mais, deixava de ir para ver como é que eu me mantenía na academia, porque quando você cria um espaço, você cria responsabilidade. Mesmo quando você tem um filho, muda a cabeça. Muda a visão, você para de brincar, você se trata como homem, e a personalidade aumenta. É uma responsa mais, é contas, é aluguer, é o seu nome, é o nome do Mestre Suassuna… tem uma coisa profesional mesmo. Um cara falou, Po! o Kibe ta tomando conta da academia com 18 anos, hoje eu tomo conta porque ele veio que eu desisti em todo na minha vida para seguir a Capoeira. Parei de brincar, parei de estudar, porque o meu pai morreu e eu tive que ajudar a minha família e deu certo, ele acreditou em mim, e eu mostro para ele que eu posso ser aquele que ele queria. Um verdadeiro profesional com responsabilidade.

O que é que tem a Capoeira que faz, por exemplo no seu caso, deixar todo para seguir ela?

Acho que é a amizade. A convivência com os Mestres Antigos assim, acho que é muito importante porque eles viveram umas coisas que a gente nunca viveu na vida. Foi a ditadura, o Suassuna apanhou demais, prenderem o Mestre, a Capoeira é hoje em dia mais o menos liberada, mais quando você tem grandes amigos como o Boca, o Poncianinho, meu aluno Marcelo, quando eu vejo meus amigos, eu poderia começar tudo de novo! É legal, é prazeroso, porque quando você começa um trabalho novo é tudo novo para você, o trabalho velho continua, mais o trabalho novo é uma vida nova praticamente.

Lá na matriz tem muitos estrangeiros, como é dar aula com gente de tantos lugares diferentes?

Em verdade é legal, porque o que eles em verdade gostariam mais de aprender é o português. Porque eles querem aprender como é a brincadeira, como é o palavrão, porque arroz e feijão, por que você gosta de comer arroz e feijão… os nomes laranja, açaí, então a gente leva eles para conhecer um pouco da capoeira dos amigos capoeiristas. Tem muitas pessoas de Israel, pessoas dos Estados Unidos, eu estou indo para o Japão agora que um aluno meu, eu conheci ele em 2013, vai fazer dez anos que ele está querendo me levar para o Japão. Ele fala um pouco de português, ele ficou seis meses no Brasil, aprendeu a fazer feijoada, lasanha e arroz, seis meses!
Quando um aluno o estrangeiro escolhe a sua academia é porque você é bem falado. Porque a academia tem tradição. Tradição, respeito, dignidade e humildade, tem que ser uma coisa séria. Quando eles vem para aca você tem que tratar eles bem para caramba! Porque ele poderia escolher a academia do Suassuna, do Sarará, do Coruja, é todo ali perto então, quando ele vem na sua, fale sempre obrigado, volte sempre. Que ele veja, não pelo dinheiro, mais é uma coisa que a pessoa veio de tão longe viajou trinta horas para conhecer a sua academia, então agradeça ao rapaz! É legal porque a pessoa repara em tudo, no seu olhar, no seu andar, até a sua maneira de piscar o olho… tudo o que ele aprender lá, vai tentar passar tipo po o cara é assim, ele é respeitoso, ele monta a bateria assim, a hierarquia, a graduação, as pessoas mais velhas, o pai e a mãe… eles sentem que você é verdadeiro, se você é verdadeiro e é amigo do estrangeiro ele sempre vai voltar para a sua casa.

Como foi estar ali depois da geração Miudinho?

Foi uma coisa meio crítica para a gente, para mim, porque teve a geração do Mestre Espirro Mirim do 88, teve a geração do Boca do 2000, e teve a minha geração que foi 2004. Como eu desenvolvi muita movimentação, o Suassuna pegou eu para Cristo e começou rolar movimentação junto com Boca, com Habibis, Mintirinha, Muriel, Coruja, Denis, Saroba, Chiclete, Pimenta, Joguinho, Esquilo e Chicote. Se não me engano, foram 18 capoeiristas. Para a gente essa formatura foi tope, meio parecida com aquela do 88. Depois de 50 anos de Capoeira teve duas formaturas que não vão ter outra igual, porque 18 capoeiristas, cada um de uma forma diferente de se jogar, de falar, de comunicar, um morando em Belo Horizonte, um morando em Paris, outro na Alemanha, quando a gente se viu treinou tudo em uma semana para fazer a nossa formatura perfeitamente. Para mim foi um sonho formar com essa turma que ainda é falado hoje que foi a turma mais parecida com aquela do 88.

Dicas que você daria para um capoeirista que está começando

Conheça o espaço, olhe primeiro, conheça o jeito do Mestre de dar aula. Porque o primeiro comportamento do Mestre de Capoeira, dá para ver se esse Mestre é legal. Porque tem vários mestres que ensinam a verdadeira Capoeira o não ensinam a verdadeira Capoeira. Quando um estrangeiro o um cara que está começando que é brasileiro, ele vai passar aquilo pelo aluno mais depois não é aquilo mais. E fala você tem que brigar, você tem que dar soco, e isso não é legal para o iniciante, o iniciante quando chega na academia ele quer a sua camiseta por enquanto, ele quer dar armada, quer fazer Aú que ele fala como estrela, é Aú! Ele não quer uma coisa difícil, ele quer fazer amizade, quer conhecer você, ele fica alucinado, caramba também aconteceu comigo, quando era novo de Capoeira e eu via o Suassuna jogando fazia aaaaaahh!! Um gentleman, um gladiador da Capoeira, mais quando você conhece fica mais apreensivo com o Mestre. Eu tenho que tentar ser como ele na vida, para passar para a pessoa nova. O que eu falo é para o aluno chegar na academia, ver o ambiente, fazer uma amizade legal, conversar com o Mestre, conversar com o Mestre para ver si ele quer ficar, porque em verdade quando um aluno chega muitas vezes não é aquilo que pensava que seria, o u inverso, tipo chega e o Mestre passa uma coisa e quando ele está é outra coisa e a cara está fechada. Quando o Mestre procura um aluno o u aluno procura o Mestre tem que tratar bem, porque o cara foi procurar você, porque é onde eu trabalho tem muitas academias de Capoeira e muitas academias de musculação então, quando um aluno chega na sua academia receba com um sorriso, venha provar uma aula, venha conhecer. Porque quando uma pessoa nova entra ela se liga de tudo, aí depois vai entendendo o que é a Capoeira, musicalidade, a coordenação motora, a bateria, os fundamentos… é um processo que tem que ser com o tempo, não pode ser uma coisa apressada. E gostar de fazer esporte porque é uma coisa cultural, é uma coisa tradicional, coisa que veio de muito longe, sofrida e ela até hoje é sofrida ainda.

Você tem muita força e muita flexibilidade, você treina separadas essas coisas do treino normal o vem com o tempo?

Quando eu era mais novo eu treinava 15 horas por dia, quando eu morava na academia, era uma coisa absurda. Suassuna falava que eu era um cara doente, ele ia me internar o Mestre! Eu tive muita dificuldade na Capoeira, quando acabava a aula eu sempre treinava separado para mim entender o movimento, para mim tentar de botar ele na roda de Capoeira. Eu tive que ter paciência, equilíbrio, força, tranquilidade porque eu era muito gordo e não tinha muita flexibilidade. Eu fui um dos poucos que trabalho a flexibilidade dentro de movimentos da Capoeira, i calma.

Como foi viver na academia?

É triste. Porque na verdade você passa fome, frio, você fica longe da sua mãe, da sua família, do seu pai, de tudo. No começo é bom, mas depois você sente a falta das pessoas. É um pouco ruim. Eu morei na academia quase 19 anos, e foi uma coisa meio punk. Eu perdi tudo na minha vida, o meu pai, a minha mulher… hoje, eu não dormiria na academia mais. É uma coisa meio triste que eu deixo lá para trais, foi meio chato na minha vida. O que me dava força e quando eu via a minha filha, eu me falava eu preciso me levantar porque tenho uma filha para criar e ela é quem me dá força junto com deus e a minha família, sem eles a gente não é nada.

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