Entrevista a Mestra Ana Dourada

Mestra Ana Dourada

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Mestra Ana Dourada

Ana Dourada, na família Luciana, na arte Ana.

Mestra Ana mora na Austria onde tem um grande trabalho com a dança e com a Capoeira, Barracão Capoeira.

A sua paixão pela dança conseguiu trazer alunas da fria Áustria para essa dança alegre e sensual do Brasil.

Ela começou na Capoeira de criança, aos dez anos de idade e até hoje é um exemplo de força, de paixão, de harmonia nos movimentos.

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Entrevista a Mestra Ana Dourada, 14 de Novembro 2016

Quando e como você começou na Capoeira?

Eu comecei quando eu tinha dez anos de idade num projeto pra crianças pobres. Eu não entrei na Capoeira com motivo do esporte né por achar bonita, eu entrei na Capoeira porque eu era muito pobre e a gente não tinha comida em casa. Foi uma maneira de não passar fome, de não morrer de fome. A Capoeira me deu muita coisa boa, ela me alimentou e também tinha outro lado, porque eu morava numa favela Alto das Almas do Morro em Guaratinguetá a gente tinha poucas escolhas. O a gente era prostituta, o a gente entrava no mundo do crime, o a gente trabalhava muito, mais como a minha família era muito grande, minha mãe tem 14 filhos, era muito complicado.
Eu comecei a trabalhar aos nove anos de idade para poder sobreviver no mundo e a Capoeira é onde eu encontrei a alimentação. Lógico que depois com o tempo eu tive que deixar a Capoeira porque os meus pais não aceitavam porque a Capoeira era marginalizada. A Capoeira era para homens, era para maconheiros… e a minha família me tirou da Capoeira. E depois de dois anos, com doze anos de idade, eu voltei e nunca mais parei de treinar.

Quem é seu Mestre? Sempre foi?

Meu Mestre sempre foi o Mestre Zé Antonio, eu falo isso porque quando eu dei início na Capoeira o Mestre Ponciano, o irmão do Mestre Zé Antonio, ele dava aula no projeto, mas ele ficou pouco tempo e colocou um aluno dele, mas a gente não queria mais treinar com o aluno dele. Aí surgiu a proposta para formar um grupo feminino na academia do Mestre Zé Antonio. E eu comecei a treinar com o Mestre Zé Antonio, mais para isso eu tinha que ir e limpar a academia porque a gente não tinha dinheiro para pagar a aula e a gente limpava, cuidava da academia toda para poder seguir as aulas de graça. No começo eu treinava só uma vez por semana, no domingo, porque não tinha ninguém treinando. Mais depois o Mestre Zé Antonio nos chamou para formar o grupo feminino e eu comecei a trabalhar dentro da academia como faxineira, como secretaria. A gente começou a me conhecer porque eu vivia, eu comia da Capoeira as 24 horas. O Mestre Zé Antonio é realmente o único Mestre que eu tenho, tive e sempre foi ele.

Como é que surgiu esse grupo feminino?

Mestre Zé Antonio tinha umas meninas mais todas eram da sociedade, meninas ricas, não tinham muito interesse em querer viajar e aceitar as oportunidades que a capoeira dava porque elas achavam ela mais para curtição, e como a gente vinha do outro lado a gente començou trinar para ser valorizado. A gente montou um grupo de dança afro, samba de roda, e a gente era o coro. O mestre Suassuna sempre falava que o melhor coro que tinha eram as meninas. Não foi tanto criação do Mestre Zé Antonio mais foi mais a gente mesma, as meninas mesmo querendo vencer o preconceito de homem. Porque naquela época não tinham muitas mulheres eram muito poucas.

Além do seu Mestre quem são as influencias maiores que você teve na Capoeira?

Mestre João Grande é o meu mentor na Capoeira Angola. Eu sempre falo que a gente tem dois lados, os lados da moeda, cara e coroa. Meu coroa é o Mestre João Grande, porque ele foi quem me ensino a Capoeira Angola, a tocar e a cantar, e os movimentos que eu sei fazer é dele. Eu sei muitas histórias da Capoeira por ele, ele é o meu melhor amigo e o meu mentor na Capoeira Angola. Mais no outro lado da moeda é o Mestre Ponciano e o Mestre Zé Antonio.

Qual é o seu apelido e porqué?

Meu apelido é Dourada, eu tinha outro apelido, hoje eu vejo como o Mestre Morais que fala, tem preconceito nos apelidos né? Na época, por eu ter uma canela muito fina, o meu Mestre me chamou de Canelinha de Sabiá. Eu não gostava porque para mim isso era um bulling e eu não quis mais treinar. Depois de um tempo ele foi na minha casa me buscar, porque eu era importante para ele porque eu fazia todo, e eu falei: eu volto, mas eu não quero mais esse apelido de Canelinha de Sabiá. Quando eu nasci, eu era parda, de cor amarela, e a minha mãe sempre me chamou de Banana. Minha Bananinha. E aí depois de muito tempo, o Mestre Poncianinho, acho que depois da segunda o terceira vez que veio para minha casa, para dar aula na Austria, a gente começou a conversar mas porque a Banana, eu comecei a lhe contar a história e ele falou, não, você não tem nada que ver com o amarelo, você tem que ver com o ouro. Sua cor é ouro, seu cabelo é ouro, sua pele é ouro, então você é Dourada. Foi o Mestre Poncianinho quem me deu o nome de Dourada. Trocou amarela pelo Dourada, ficou melhor!

Qual é o seu nome real?

Meu nome é Luciana, nem Ana, nem Aninha… é Luciana

Você é uma das referências que a gente tem na dança, como é que chegou a dança na sua vida?

A dança chegou antes da Capoeira porque quando eu morava no Alto das Almas, no Morro, eu cresci do lado de uma escola de Samba de Carnaval. Quando eu tinha cinco anos eu concorri a princesa do carnaval e eu ganhei, como a minha irmã que também ganhou que é a Contra Mestra Andria. A partir do momento que eu entrei na Capoeira eu aprendi Samba de Roda. Aí surgiu a Samba de Roda, surgiu o Afro e outras danças.

Eu gostaria de falar um pouco da importância que tem a dança na Capoeira. A Capoeira é uma luta mas tem parte de dança e tem muitas danças que chegam perto da Capoeira

A Capoeira com a dança elas andam juntas, elas nasceram praticamente juntas. É muito difícil você separar o lado da Samba de Roda, como o maculelé da Capoeira. Quando você traz o Samba de Roda, traz o Afro u outras danças para o seu mundo da Capoeira, a Capoeira fica mais leve, tem mais expressão. Eu acho que tem tudo a ver a Capoeira com a dança. Eu uso muito o meu corpo da dança na Capoeria, as vezes a gente me fala nossa você tem um bailado diferente na roda, é porque eu ser dançarina e trazer movimentos que são muito bonitos no afro eu trago para a capoeira. É muito difícil porque eu fui criada na Capoeira do Mestre Zé Antonio que não era só Capoeira, tinha Jongo, tinha Samba de Roda, hoje está se perdendo um pouco isso no mundo da Capoeira. A Capoeira e a dança nunca vão se separar, porquê a Capoeira é dança e se você consegue trazer unos movimentos do mundo da dança na sua Capoeira fica mais bonito.

Como é a religiosidade da Capoeira?

Eu não tenho muito essa mistura, eu tenho um lado muito forte com a religião da Umbanda, não do Candomblé. E muitas vezes quando eu estou dançando eu trabalho muito com a energia da dança. As vezes eu estou dando aula num evento e eu não consigo te falar o que eu passei porque as vezes eu nem sei o que eu passei. Aí vem o momento da religião mais é uma parte que é minha, eu não quero que a gente pense que a Capoeira tem isso. Cada um tem o seu jeito. Eu aproveito, porque como eu tenho esse dom de ter o meu lado eu aproveito, mais e bom trabalhar esse lado na energia espiritual, para mim é muito bom. Muitas pessoas vem a Capoeira como só um esporte mas para mim não é, para mim a Capoeira é um todo. É guerra, é Sol, é Ar, não tem jeito de você separar. Para mi não tem separação. Isso muito na dança, na Capoeira eu ainda consigo assegurar um pouco, porque acho que eu tenho um pouco de medo porque muitas vezes já joguei sem saber como estava jogando.

Como foi a sua chegada na Europa? Como é que você decidiu vir para aqui?

A chegada na Europa nem foi pela Capoeira, foi pelo meu lado artístico de bailarina. Eu fui para Taiwan para bailar numa Disneyworld lá, mais eu fui como dançarina. Dança de Maculelé.. Danças folclóricas brasileiras. Eu mais cinquenta pessoas, eu tinha acabado de sofrer uma grande decepção amorosa e eu decidi mudar a minha vida. A Capoeira me ajudo nesse momento, mais a dança me ajudo ainda mais. Eu participe de um concurso em São Paolo com uma galera lá, eu passei e foi viajar com várias pessoas. No meio desse mundo tinha capoeiristas, quando eles souberam que eu fazia Capoeira, ai a gente decidiu de fazer o show de Capoeira juntos. Éramos eu e outra menina que fazíamos capoeira com oito meninos. A Capoeira chegou depois mais eu nunca fui para Europa pela Capoeira.

Você mora em Bregenz, Áustria, como é dar aula de Capoeira, uma coisa tão brasileira, de Samba, para estrangeiros que não tem esse calor?

Eles não têm esse calor, mas eles têm uma coisa muito interessante e muito brasileira que é o interesse de querer conquistar alguma coisa. Para eles o lado da Capoeira, da Samba… eu tenho uma aluna que dança Samba parecido comigo, ela dança pra caramba, ela é austríaca. Não é que não tem brasileira que não samba, isso é mentira, eu tenho uma irmã que não samba. O trabalho da dança e da Capoeira na Áustria não foi difícil. Eu fui bem recebida, eu tinha uma época que eu tinha mais alunos, porque eu falo da minha cultura, do meu jeito porque as vezes um grande capoeirista não é um grande professor. Tem gente que acha que para ser bom professor precisa fazer saltos, eu nunca saltei, ensinar é muito diferente que fazer o que você faz na roda. As pessoas abraçaram a nossa cultura, porque ela é muito fácil para abraçar. A Capoeira em si ela é muito bonita, muito aberta, as pessoas que entram sabem que ninguém vai exigir nada de elas. Então acho que separar porque é diferente, é Europa, não, eu acho que eles ainda dão mais valor que os brasileiros.

Falando da mulher na Capoeira foi difícil no começo e as vezes ainda é, qual seria a sua dica para uma mulher que está na Capoeira?

Eu acho que não tem problema nenhum, eu acho que está na mulher mesmo. Ela se acha o ela se coloca como um problema na Capoeira, ela fala que ela é excluída. Nunca foi excluída, para mim foi difícil no começo porque eram poucas mulheres sim, mais hoje as mulheres estão, sem problema nenhum, elas são recebidas em vários eventos, em todos tem uma Mestra, uma Professora… o que eu passaria para os alunos de hoje é de não achar que tem problemas. Porque a vida é tão fácil, acho que a gente se complica muito a sua vida, não tem problema nenhum. Se a mulher se acha que é importante num lugar, ela se torna importante. Eu posso falar de não fazer isso não, porque as mulheres têm que tirar isso da cabeça porque não tem problemas.

Uma dica para um capoeirista que está começando?

Um capoeirista tem que ter determinação, não desistir, porque cada corpo é um corpo, tem movimentos que vai dar certo, outro movimento no seu corpo… a dica seria não desistir, porque a Capoeira é muito fácil, se você começa a trabalhar a Capoeira pelo coração e esquece um pouco o lado de que a coisa tem que ser assim, fica mais fácil. A Capoeira é para todos, acho que as pessoas têm que ter determinação e querer. Lógico, todo o mundo pode ter problemas, nem todo o mundo é perfeito, nem todo o mundo é muito bom em tocar, todo o mundo em cantar; eu canto, mais na roda eu não gosto de cantar porque a minha voz não parece muito, eu tenho uma voz muito ronca, dá para ouvir! Mas cada um tem o seu brilho, a sua importância na Capoeira. Se você não consegue fazer isso mas consegue fazer uma ginga bonita, você não consegue fazer uma acrobacia você sempre tem os movimentos que sejam certeiros, movimentos firmes, movimentos bonitos… eu acho que as pessoas têm que ter determinação e querer.

Quanto tempo faz que você conhece o Mestre Boca Rica?

Acho que conheço ele faz unos vinte cinco anos, porque eu estou na Capoeira há 32 anos, e eu conheço ele desde que entrou na Capoeira.

Você diz que parou de treinar?

Sim eu comecei na Capoeira quando eu tinha dez anos, depois eu retornei na Capoeira com 12 anos quando já tinha um emprego, a minha mãe falou agora você já tem um dinheiro e pode começar de novo. Eu brigue muito com a minha família, até hoje eu brigo pela Capoeira. Porque eles não aceitam ela como eu queria.

Agora a sua família gosta mais da Capoeira?

Sim, os meus pais sim, porque quando eles precisam de alguma coisa é com o dinheiro da Capoeira que eu consigo oferecer para eles talvez uma alimentação melhor, para comprar um remédio… então o dinheiro que eu ganho na Capoeira, hoje eu posso oferecer uma vida melhor para os meus pais

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